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O homem por traz do mito: a relatividade da moral

  • 7 de dez. de 2025
  • 9 min de leitura

Foto preto e branco de Albert einstein e sua primeira esposa, Mileva Marić.
Albert einstein e sua primeira esposa, Mileva Marić. (Unbekannt/Wikimedia Commons)

BERKELEY / BERLIM / PRINCETON — A história da ciência, muitas vezes, é esculpida em mármore frio, imortalizando intelectos puros desvinculados das paixões humanas. No entanto, em 1986, o mito de Albert Einstein sofreu um abalo sísmico que não veio da contestação de seus cálculos, mas da abertura de um cofre de banco em Berkeley, na Califórnia. Ali, escondidos por décadas pela executora de seu espólio, jaziam centenas de cartas pessoais que, até então, a família e os biógrafos haviam mantido nas sombras. A revelação desses documentos, somada a lotes subsequentes leiloados pela Sotheby’s em 1998, permitiu, pela primeira vez, reconstruir a verdadeira biografia íntima do homem que redefiniu o universo. O que emergiu dos papéis amarelados não foi a figura do santo secular e avô bondoso que o mundo aprendeu a amar, mas o retrato de um homem atormentado, capaz de crueldades psicológicas profundas com aqueles que orbitavam sua esfera doméstica.


Vista frontal de um prédio: O campus Zentrum da ETH em Zurique visto do Polyterrace. Fotógrafo: Anand Kesari
O campus Zentrum da ETH em Zurique visto do Polyterrace. Fotógrafo: Anand Kesari (Wikimedia Commons)

Para compreender a gênese dessa complexidade, é preciso recuar ao final do século XIX, especificamente ao ano de 1896, nos corredores sóbrios do Instituto Politécnico de Zurique, na Suíça. Foi neste cenário acadêmico, dominado inteiramente por homens, que um jovem Albert Einstein, então com 17 anos, encontrou uma figura que desafiava as convenções da época. Mileva Marić, nascida em Titel (na atual Sérvia) em 1875, era a única mulher matriculada na turma de física e matemática. Filha de uma família abastada, Mileva carregava consigo uma determinação feroz, necessária para romper as barreiras de gênero da época, e uma claudicação física decorrente de uma displasia de quadril, que a tornava reservada e melancólica.


A união entre os dois não foi imediata, mas inevitável. Entre pilhas de livros e debates sobre o eletromagnetismo, floresceu uma paixão avassaladora que misturava admiração intelectual e desejo juvenil. Nas cartas trocadas durante as férias de verão, Einstein a chamava de "minha pequena boneca", enquanto debatiam os fundamentos do que viria a ser a física moderna. Mileva não era apenas uma namorada; era, nas palavras do próprio Einstein, uma "criatura igual a mim, forte e independente". Contudo, essa simbiose enfrentava um obstáculo formidável na figura de Pauline Einstein. A mãe de Albert, uma matriarca judia alemã com pretensões sociais, opunha-se violentamente ao relacionamento. Para ela, Mileva era "velha demais", fisicamente imperfeita e, pior de tudo, uma intelectual gentia (não judia) vinda dos Bálcãs.


A despeito da oposição familiar, a tragédia começou a se insinuar na vida do casal antes mesmo do matrimônio. Em janeiro de 1902, Mileva deu à luz uma menina, Lieserl, na casa de seus pais na Sérvia. Einstein, que estava em Berna tentando garantir um emprego no Escritório de Patentes, nunca viu a criança. A existência de Lieserl foi um dos segredos mais bem guardados da história da ciência, revelado apenas nas cartas descobertas em 1986. O destino da menina permanece um mistério histórico: ela desapareceu dos registros com menos de dois anos, provavelmente vitimada pela escarlatina ou entregue para adoção forçada, a fim de não manchar a reputação do jovem funcionário público que Einstein se tornara. O casamento oficial ocorreu finalmente em janeiro de 1903, em Berna, sob a sombra desse segredo compartilhado.


Os anos seguintes em Berna foram marcados por uma colaboração intensa e doméstica. Enquanto Einstein trabalhava no escritório de patentes durante o dia, Mileva assumia o papel de revisora e caixa de ressonância à noite. Há um debate historiográfico acalorado sobre o grau de contribuição de Mileva no "Ano Miraculoso" de 1905, quando Einstein publicou os quatro artigos que mudariam a física. Embora ela não tenha assinado os trabalhos, cartas da época mostram Einstein referindo-se à "nossa teoria" e ao "nosso trabalho sobre o movimento relativo". No entanto, à medida que o mundo acadêmico começava a voltar seus olhos para Albert, a luz de Mileva era sistematicamente apagada. O nascimento dos filhos Hans Albert (1904) e Eduard (1910) empurrou a matemática brilhante para o papel exclusivo de dona de casa, gerando um ressentimento silencioso que corroía a relação.


A ruptura definitiva começou a se desenhar em 1912, durante uma viagem de Einstein a Berlim. Já um cientista renomado, ele reencontrou sua prima, Elsa Löwenthal. Divorciada, mãe de duas filhas e perfeitamente integrada à alta burguesia berlinense, Elsa representava o oposto de Mileva: não tinha interesse em física, mas sabia navegar nos salões sociais e oferecia a Albert uma adoração incondicional que a esposa, crítica e intelectualmente exigente, já não fornecia. O caso extraconjugal iniciou-se quase imediatamente. Durante dois anos, Einstein manteve uma vida dupla, trocando correspondências com Elsa onde descrevia Mileva como uma "funcionária azeda" e "uma pedra no sapato".


O clímax dessa tensão ocorreu em abril de 1914, quando a prestigiada Universidade de Berlim ofereceu a Einstein uma posição que ele não poderia recusar. A mudança da família para a capital alemã foi o catalisador do desastre. Mileva, ao chegar a Berlim, percebeu rapidamente que estava em território inimigo, cercada pela família de Einstein e pela amante que morava a poucos quarteirões. O ambiente doméstico tornou-se uma zona de guerra fria. Einstein, desejando a separação mas temendo o escândalo público e a perda do contato com os filhos, optou por uma estratégia de desgaste psicológico.


Foi neste contexto, em julho de 1914, dentro do apartamento da família em Berlim, que Einstein redigiu um dos documentos mais perturbadores de sua biografia. Conhecido hoje como o "Memorando de Condições", o texto não era um pedido de divórcio, mas um regulamento de servidão. Com a frieza de quem descreve um experimento, Einstein listou suas exigências para que o casamento continuasse. O documento estipulava que Mileva deveria assegurar a manutenção impecável de suas roupas e da casa, além de garantir que três refeições fossem servidas diariamente em seu escritório. Contudo, a brutalidade real residia nas cláusulas comportamentais.


Einstein exigiu que Mileva renunciasse a qualquer expectativa de afeto ou contato pessoal. "Você não esperará intimidade de minha parte, nem me reprovará de qualquer maneira", escreveu ele. As regras de engajamento eram estritas: Mileva deveria calar-se imediatamente caso ele solicitasse e sair de seu escritório ou quarto sem protesto ao menor sinal de ordem. O objetivo do documento era claro: transformar a esposa em uma governanta invisível. Mileva tentou, por algumas semanas, submeter-se às regras em nome dos filhos, mas a situação era insustentável. Com o início da Primeira Guerra Mundial ecoando ao fundo, ela fez as malas e retornou a Zurique com Hans Albert e Eduard, deixando Einstein livre em Berlim.


O divórcio, contudo, só seria finalizado legalmente em 1919, após cinco anos de separação física. A negociação final revelou a absoluta confiança de Einstein em seu próprio futuro. Sem dinheiro líquido para oferecer uma pensão substancial, ele propôs um acordo de risco: se — ou quando — ganhasse o Prêmio Nobel de Física, o valor integral da premiação seria transferido para Mileva. Ela aceitou a aposta. Quando Einstein finalmente recebeu a honraria em 1922 (pelo efeito fotoelétrico, e não pela relatividade), ele cumpriu a promessa. O dinheiro, no entanto, não trouxe felicidade; foi consumido em grande parte pelos tratamentos psiquiátricos de Eduard, o filho caçula, que foi diagnosticado com esquizofrenia aos 20 anos e terminou seus dias em um sanatório suíço, raramente visitado pelo pai.



Elsa Einstein com seu marido, Albert Einstein, chegando em Nova Iorque a bordo do SS Rotterdam
Elsa Einstein com seu marido, Albert Einstein, chegando em Nova Iorque a bordo do SS Rotterdam. Autor: Underwood and Underwood, New York (Wikimedia Commons)

Enquanto Mileva lutava na Suíça, a vida de Einstein em Berlim entrava em uma nova fase. Poucos meses após o divórcio, em 1919, ele casou-se com Elsa Löwenthal. A união causou murmúrios na sociedade, não apenas pela rapidez, mas pela consanguinidade: eram primos em primeiro grau por parte de mãe e em segundo grau por parte de pai. A dinâmica deste segundo casamento foi radicalmente distinta. Elsa não buscava paridade intelectual; ela assumiu o controle da vida prática do gênio. Tornou-se sua gatekeeper, decidindo quem podia falar com ele, gerenciando suas finanças e garantindo que ele tivesse a aparência respeitável de um professor prussiano.


Em troca dessa devoção, Elsa teve que suportar humilhações públicas e privadas. A visão de Einstein sobre a monogamia era, na melhor das hipóteses, cética. "O casamento é a tentativa malsucedida de fazer algo durar que foi apenas um incidente", diria ele mais tarde. Durante os anos 1920 e início dos anos 1930, no auge de sua fama mundial, Einstein envolveu-se com uma série de mulheres, muitas vezes com o conhecimento tácito de Elsa. Entre elas estavam sua secretária, Betty Neumann, e socialites ricas como Margarete Lebach e Ethel Michanowski.


As cartas de Elsa para suas filhas revelam o sofrimento de uma mulher que se via presa em uma gaiola dourada. Ela chorava e protestava, mas Einstein recusava-se a alterar seu comportamento, argumentando que as convenções burguesas não se aplicavam a ele. A relação manteve-se de pé por uma simbiose de necessidades: ele precisava de uma mãe substituta e gerente; ela precisava do status. Essa estrutura perdurou até a ascensão do nazismo, que forçou o casal a fugir para os Estados Unidos em 1933, estabelecendo-se em Princeton. Elsa morreu apenas três anos depois, em 1936, de problemas cardíacos e renais, deixando Einstein viúvo e, segundo seus próprios relatos, "mais em paz" em sua solidão do que jamais estivera acompanhado.


O terceiro e último ato da vida amorosa de Einstein, talvez o mais surpreendente, permaneceu oculto até o final do século XX. Ocorreu durante a Segunda Guerra Mundial, quando o físico já era um ícone de cabelos brancos vivendo em Mercer Street, em Princeton. Solitário e com a saúde declinando, ele conheceu Margarita Konenkova em 1935, mas o romance floresceu intensamente apenas após a morte de Elsa. Margarita era a esposa do "Rodin russo", o escultor Sergei Konenkov, que havia sido contratado pela Universidade de Princeton para fazer um busto de Einstein.


Enquanto Sergei trabalhava no bronze, Einstein e Margarita, então com 39 anos (ele tinha 56 na época do primeiro encontro, mas o romance se intensificou na década de 40, quando ele já passava dos 60), iniciaram um relacionamento tórrido. As cartas reveladas pela Sotheby's mostram um Einstein irreconhecível, escrevendo com a paixão de um adolescente. Eles criaram um vocabulário íntimo, fundindo seus nomes no acrônimo "Almar" para designar a união de suas almas. O cientista chegou a forjar atestados médicos, recomendando que Margarita precisasse de "clima favorável" no lago Saranac, upstate New York, onde ele mantinha uma casa de veraneio, apenas para que pudessem passar dias juntos longe do marido dela.



Foto antiga, em preto e branco onde Albert Einstein e Margarita Konenkova aparecem juntos. Foto sem data
Albert Einstein e Margarita Konenkova aparecem juntos em uma foto sem data. (Wikimedia Commons)

O que Einstein ignorava — ou escolheu ignorar convenientemente — era o contexto geopolítico que trazia Margarita à sua porta. Ela não era apenas uma expatriada russa charmosa; ela era uma agente ativa da NKVD, o serviço de inteligência soviético que precedeu a KGB. Documentos desclassificados pelos arquivos russos e pelo FBI confirmam que a missão de Margarita era clara e perigosa: infiltrar-se no círculo de cientistas que desenvolviam a bomba atômica americana.


Embora Einstein tivesse sido deliberadamente excluído do Projeto Manhattan pelo governo dos EUA devido às suas inclinações pacifistas e socialistas, ele mantinha uma amizade próxima e intelectual com J. Robert Oppenheimer, o diretor científico do projeto. A função de Margarita era usar Einstein como uma ponte de confiança para acessar Oppenheimer e outros físicos nucleares. Registros indicam que ela foi bem-sucedida em, pelo menos, facilitar encontros sociais entre Einstein e o vice-cônsul soviético em Nova York, Pavel Mikhailov, que era o chefe da estação de espionagem na cidade.


A questão que permanece sem resposta definitiva entre os historiadores é o quanto Einstein sabia. Teria o homem mais inteligente do mundo sido enganado pelo amor, ou sua visão internacionalista o tornava simpático à ideia de compartilhar segredos nucleares para evitar o monopólio americano? O fato é que o romance teve uma data de validade imposta pela política. Com o fim da guerra em 1945, o casal Konenkov recebeu ordens de Moscou para retornar imediatamente à União Soviética.


A despedida foi dolorosa. Einstein presenteou Margarita com um relógio de ouro, um símbolo do tempo que lhes restava separadamente. Ela partiu para viver seus últimos anos em Moscou, sob o olhar vigilante de Stalin, enquanto Einstein permaneceu em Princeton até sua morte em 1955. Eles continuaram a trocar cartas através da Cortina de Ferro, correspondências cheias de nostalgia e reflexões sobre a velhice, mas desprovidas de segredos atômicos. Margarita morreu em 1980, isolada e em greve de fome, cercada pelos papéis que comprovavam que ela havia conquistado o coração da mente mais célebre do século.


Ao analisar o arco completo dessas três relações, emerge um padrão perturbador que humaniza o mito. Einstein buscou, durante toda a vida, simplificar o universo em leis elegantes e unificadas, onde a gravidade e o eletromagnetismo pudessem dançar juntos. No entanto, em sua vida privada, ele gerou apenas entropia. Da rejeição fria a Mileva, passando pela utilização funcional de Elsa, até a vulnerabilidade final nos braços de uma espiã, Albert Einstein provou que a inteligência lógica não é garantia de competência emocional. Sua biografia íntima serve, portanto, como um lembrete contundente: é possível compreender a curvatura da luz das estrelas distantes e, ainda assim, ser incapaz de enxergar a dor causada àqueles que dividem o mesmo teto. Fontes:

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